Membro Honorário da Ordem de Benemerência / Medalha de Mérito Desportivo / Medalha de Bons Serviços Desportivos

Medalha de Cultura Física da Câmara Municipal de Lisboa / Medalha de Prata da Fed. Port. Colect. Cultura e Recreio / Troféu Olímpico 1996

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Cândido de Oliveira

Treinou os 'Cinco Violinos' do Sporting na década de 40, lançou José Maria Pedroto na primeira equipa do FC Porto na década de 50, e foi o primeiro capitão da Seleção Nacional nos anos 20, depois de ter começado a jogar futebol no Benfica por indicação de Cosme Damião, fundador do clube 'encarnado'. Cândido de Oliveira fundou ainda o jornal desportivo A Bola, depois de 18 meses num campo de concentração no Estado Novo, e de uma luta silenciosa contra os regimes fascistas europeus enquanto agente secreto dos Aliados, e pelo meio ainda contribuiu para o desenvolvimento do profissionalismo e divulgação das regras do futebol em Portugal.

Cândido de Oliveira foi um autêntico 'homem do Renascimento' na história do futebol português, e um dos pioneiros em Portugal no desenvolvimento teórico sobre metodologias de treino e tácticas do futebol.

Conhecido pelos amigos por 'Chumbaca', devido à sua figura corpolenta e atarracada, Cândido de Oliveira conseguiu desdobrar-se em múltiplas dimensões para concentrar numa só vida o papel de jogador de futebol, árbitro, funcionário público, agente secreto, jornalista, treinador, selecionador nacional, escritor e preso político.

Nascido no final do século XIX em Fronteira, distrito de Portalegre, no seio de uma família numerosa do qual era o último de 10 filhos, Cândido de Oliveira cedo perdeu a família, sendo entregue à Casa Pia como órfão aos nove anos de idade.

Na Casa Pia, o jovem Cândido acabaria por tomar um profundo contacto com uma das grandes paixões lisboetas do início do século XX: o futebol.

 

Escolhido por Cosme Damião

Jogador habilidoso e de grande capacidade de passe, Cândido Oliveira deu nas vistas a jogar à bola na Casa Pia, onde despertou o interesse de um ídolo de infância, Cosme Damião, que o leva para o Benfica em 1914, e onde durante seis anos se destacaria como médio centro da equipa de honra dos 'encarnados'.

Em 1915, com 19 anos, Cândido Oliveira começa a trabalhar nos CTT, como funcionário superior, ao mesmo tempo que continua a jogar na equipa de honra do Benfica onde coincide com Ribeiro dos Reis, um casapiano com quem irá travar uma amizade de vários anos e que levará à fundação do jornal desportivo A Bola, já na década de 40.

No conjunto 'encarnado', Cândido Oliveira acaba por subir à equipa principal pela mão de Cosme Damião em 1920, ano em que decide fundar o Casa Pia Atlético Clube com antigos alunos da Casa Pia.

Segundo as crónicas da altura, Cândido Oliveira apresentava um "estilo de jogo energético, de resistência invulgar, com as pernas arqueadas, que seguravam a bola como se fossem tenazes, impulsionava os seus companheiros lançando-os com passes precisos para o caminho do triunfo".

Apesar da forte ligação ao Benfica, problemas com a direção do clube levam-no a abandonar as 'águias' para ingressar na temporada de 1920/1921 no Casa Pia Atlético Clube, onde, com apenas 24 anos, Cândido Oliveira assume-se como figura marcante da equipa, com a conquista do Campeonato Regional de Lisboa na época de estreia do clube lisboeta. O bom futebol praticado pelos 'gansos' leva a várias convites para exibições no estrangeiro, nomeadamente em Sevilha e Paris, e à convocatória de vários jogadores do Casa Pia AC para o célebre primeiro jogo internacional entre Portugal e Espanha, em Madrid, onde Cândido Oliveira se tornaria o primeiro capitão da Seleção de Portugal.

Dos Jogos Olímpicos de 1938 à paixão pelo jornalismo desportivo

Durante os anos seguintes, a paixão pelo futebol leva Cândido Oliveira a enveredar pelo estudo das leis do jogo e a apitar vários jogos do Campeonato de Portugal da época 1923/1924, uma competição com moldes de eliminatórias e que daria origem à Taça de Portugal. A passagem de Cândido Oliveira pelo sector da arbitragem teve um importante contributo não só pelo estudo que fez das regras do jogo, mas também pela sua divulgação, dirigindo também a corporação dos árbitros lisboetas, quando este organismo em fase de transição, perdeu a sua independência.

Estudioso do fenómeno do futebol e defensor idealista do poder do colectivo na modalidade, Cândido Oliveira enveredou também nesta altura por outra das suas paixões: o jornalismo desportivo. Começa por escrever na revista 'Stadium', e foi redator de vários jornais como 'Os Sports', 'Diário de Lisboa', 'Diário de Notícias' e 'Século'. Foi o selecionador nacional na estreia da equipa de futebol de Portugal nos Jogos Olímpicos de Amesterdão em 1928, onde a formação lusa deixou uma boa imagem no torneio que daria origem aos Campeonatos do Mundo, e em 1936 assume o comando técnico do Belenenses, levando a formação lisboeta a um honroso segundo lugar no campeonato nacional, a apenas um ponto do campeão Benfica.

De agente secreto antifascista a prisioneiro anónimo num campo de concentração, antes de fundar o jornal A Bola

Em paralelo às atividades relacionadas com o futebol, Cândido Oliveira nunca escondeu as suas posições políticas contra os regimes fascistas europeus de Hitler, Mussolini, Franco e Salazar, o que o levou a tornar-se num agente secreto para Inglaterra, e os seus aliados, com o codenome 'Pax', tendo como responsabilidade a monitorização dos movimentos da Alemanha Nazi em Portugal para a rede clandestina do Special Operations Exectuive (SOE).

A 1 de março de 1942, Cândido Oliveira é detido em casa pela polícia política do Estado Novo, brutalmente espancado, e deportado para o campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, sob acusação da Gestapo de liderar uma organização antifascista vocacionada para a luta de guerrilha em caso de uma invasão nazi à Península Ibérica.

Na prisão política do Tarrafal, Cândido Oliveira não abdica dos ideais de liberdade e justiça, e durante dois anos registou secretamente, em estilo de reportagem, os graves crimes cometidos pelo Governo de Salazar contra os dissidentes políticos na ilha de Santiago, num livro que seria publicado apenas em 1974 com o título de 'Tarrafal - Pântano da Morte'.

"Dentro do Campo não se vive! Aguarda-se a morte! É uma morte lenta mas certa. Apenas uma questão de tempo... (...) procure-se conhecer todos os casos, enfim, de doença ou carência operados pelo pântano do Tarrafal e pelo duro regime prisional, e só então poderemos avaliar em toda a grandeza a obra do Governo do dr. Salazar como meio de exterminar o antifascismo em Portugal!", pode ler-se no livro de Cândido Oliveira, publicado depois da revolução de abril de 1974.

Com o desfecho da II Guerra Mundial a encaminhar-se a favor dos Aliados, Salazar é pressionado pelos ingleses a libertar os presos políticos antifascistas que contribuíram para a causa dos Aliados, e foi neste contexto que, em 1944, Cândido Oliveira é libertado da prisão política do Tarrafal para regressar a Lisboa 18 meses depois.

No entanto, as condições de subnutrição, alimentação estragada, falta de medicamentos e assistência médica, aliada aos maus tratos e torturas físicas e psicológicas, assim como os trabalhos forçados e a desidratação extrema por falta de água potável, deixaram uma profunda cicatriz em Cândido Oliveira, que, no seu regresso a Lisboa, rejeita a possibilidade de voltar a trabalhar nos CTT.

Apesar do desemprego 'forçado' pela dissidência política, Cândido Oliveira decide fundar um jornal desportivo juntamente com António Ribeiro dos Reis e Vicente de Melo, e a 2 de janeiro de 1945 surge a primeira edição do jornal A Bola. Um jornal publicado duas vezes por semana, e que estabeleceria durante várias décadas os parâmetros de excelência no jornalismo desportivo português.

Um dos primeiros 'maestros' dos 'Cinco Violinos' do Sporting

Nesse mesmo ano, o experiente treinador é convidado para assumir o comando técnico do Sporting Clube de Portugal e da Seleção Nacional, depois de perder o cargo de selecionador nacional por causa da sua detenção no Tarrafal, e logo na sua primeira época ao serviço dos 'leões' Cândido Oliveira conquista a Taça de Portugal com uma equipa onde já atuavam os 'violinos' Peyroteo, Jesus Correia e Albano.

Em Alvalade, Cândido Oliveira contribuiu para o domínio 'leonino' no futebol português, e com a célebre equipa dos 'Cinco Violinos' conquistou dois campeonatos e uma Taça de Portugal, ficando para sempre ligado ao primeiro tricampeonato do futebol português ao serviço do Sporting.

Em 1950, o Flamengo, do Rio de Janeiro, convida Cândido Oliveira para assumir o comando técnico da equipa brasileira, mas a experiência não corre bem, e ao final de seis jogos e uma vitória o treinador português é afastado do cargo.

Apesar da curta experiência no futebol brasileiro, Cândido de Oliveira regressa a Portugal com a convicção de melhorar o futebol português e dotar as equipas de um maior conhecimento ao nível tático.

Depois do Maracanã, o regresso a Portugal para treinar o FC Porto de Pedroto

Após a (curta) experiência no Flamengo, Cândido de Oliveira ruma ao norte para assumir o comando técnico do FC Porto na época 1952/1953, e logo na sua estreia leva os portistas à final da Taça de Portugal, que acabaria por perder diante do Benfica por 5-0.

Apesar da derrota com o Benfica na final da Taça de Portugal de 1953, Cândido Oliveira desenvolve um trabalho no FC Porto que iria trazer frutos anos mais tarde, a começar, desde logo, pela contratação de um jovem médio natural de Lamego, de seu nome José Maria Pedroto.

Na época seguinte, o FC Porto voltou a falhar a conquista do título, ficando em segundo lugar atrás do Sporting, que assim alcançava o primeiro tetracampeonato do futebol português. Na Taça de Portugal, o FC Porto de Cândido Oliveira seria afastado das meias-finais pelo Sporting ficando mais um ano em jejum de títulos, algo que estaria perto de terminar com a 'dobradinha' de 1956/1956, mas já sem o 'mestre' Cândido ao leme.

Em 1955, a Académica de Coimbra convida Cândido Oliveira para assumir a equipa de futebol, e mais uma vez a paixão pelo futebol levam o 'mestre' Cândido à cidade do conhecimento, onde ocuparia o cargo de treinador até à sua morte em 1958, quando estava na Suécia, em reportagem pelo jornal A Bola, para fazer a cobertura da prova que serviria de palco para o nascimento de uma das maiores lendas do futebol: Pelé.

No Mundial da Suécia de 1958, Cândido de Oliveira adoeceu gravemente, e mesmo contra os conselhos médicos continuou a trabalhar para fazer a cobertura da prova, tendo falecido a 23 de junho de 1958 nas vésperas das meias-finais.

Fonte: Sapo Desporto

Jornalista Eduardo Santiago

Roquete - uma lenda do Casa Pia

Em 24 de Março de 1929, Portugal e França defrontam-se em Paris no Stade des Colombes. Uma camara acompanha Roquete e assim podemos ter uma imagem da sua elegância e atenção ao jogo.


Captura de imagem do filme acima apresentado. Lá está Roquete tendo no seu lado esquerdo o inconfundível Tamanqueiro e Carlos Alves, o avô de João Alves e primeiro luvas pretas e no seu lado direito entre outros o infeliz Pepe. Se virem o filme poderão ainda ver dois Benfiquistas, Vítor Silva e a sua inconfundível boina e o excelente defesa António Pinho.